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O que inatividade física tem a ver com as empresas?

pesquisas que demonstraram que, em três anos, nas academias cariocas, 83% dos frequentadores diminuíram a dosagem do medicamento, 41% a frequência ao dia e 7% não precisam mais ser medicados Por Alberto Ogata  A revista Lancet publicou em julho, um estudo global bastante importante que analisou o impacto no adoecimento relacionado a doenças crônicas e na expectativa de vida relacionada à inatividade física (Lancet 380:219-229, 2012).Os autores lembram que os médicos na Antiguidade, incluindo os da China em2600 ACe Hipócrates (no ano 400) acreditavam no valor da atividade física (AF) para a saúde. No entanto, no século XX, surgiu uma visão diametralmente oposta: o exercício é perigoso. No início deste século, se prescrevia repouso completo para pacientes com infarto agudo do miocárdio e havia estudos para analisar os perigos da atividade física em comparação com a atividade intelectual. A partir dos estudos de Jerry Morris (1953) surgiram muitas evidências que documentaram os inúmeros benefícios da atividade física. Desde então se comprovou que a atividade física leva a redução nos índices de doença coronariana, hipertensão arterial, AVC, diabete tipo 2, câncer de mama e cólon, depressão e quedas. Em todo o mundo, estimou-se que a inatividade física causa de 6 a 10% das principais DCNT (doença coronariana, diabete tipo 2, câncer de cólon e mama). Além disso, este comportamento não saudável causa 9% da mortalidade prematura ou mais que 5,3 dos 57 milhões de mortes em 2008. Com a eliminação da inatividade física a expectativa de vida da população mundial deve aumentar em 0,68 anos.  Estes achados tornam a inatividade física similar aos fatores de risco bem estabelecidos – tabagismo e obesidade. Apesar disso, uma grande proporção da população permanece fisicamente inativa. Para quantificar o efeito da inatividade física nas DCNT, foi estimado o quanto estas doenças podem ser evitadas na população se as pessoas inativas se tornarem ativas, bem como quanto de expectativa de vida pode ser aumentado a nível populacional. O estudo demonstrou que o Brasil seria um dos países com maior impacto no aumento da expectativa de vida associado à abordagem da inatividade física, com redução de 8 a 14% na prevalência de doença coronariana, diabete tipo 2 e câncer do cólon e mama. Em artigo publicado no dia 29 de julho na Seção de Opinião do jornal Folha de São Paulo, matéria assinada pelo Ministro da Saúde, Alexandre Padilha reforça a importância da atividade física para a saúde das pessoas. O ministro destaca que  o governo federal tem investido no Programa “Academia da Cidade” e prevê a instalação de 4.000 unidades até 2014. Cita pesquisas que demonstraram que, em três anos, nas academias cariocas, 83% dos frequentadores diminuíram a dosagem do medicamento, 41% a frequência ao dia e 7% não precisam mais ser medicados. Outros fatores que aumentam o risco cardíaco também sofreram drásticas quedas: 88% dos praticantes diminuíram o peso corporal, 62% o IMC e 84% a circunferência abdominal. Ressalta, finalmente dos dados do estudo VIGITEL  em que  se constatou redução da inatividade entre os homens, de 16% para 14,1%, uma redução de 0,7% ao ano. No âmbito da saúde corporativa, constata-se que além dos baixos indicadores de atividade física temos a questão das pessoas que ficam muitas horas sentadas em seus postos de trabalho. Os impactos deste comportamento são bem conhecidos e se constituem em risco isolado importante para doenças crônicas. Provavelmente abordagens como as do Programa Academia da Cidade, concebidos para envolver toda a comunidade têm impacto limitado para as ações no ambiente de trabalho. Deste modo, acredito que há dois desafios principais neste contexto: Os gestores de saúde nas empresas precisam utilizar estratégias específicas para o ambiente de trabalho envolvendo abordagens individuais, no ambiente e nas políticas corporativas. Neste contexto, devemos utilizar as técnicas de aconselhamento(coaching), economia comportamental  e incentivos. As empresas precisam ter uma ação mais proativa de “advocacy” para que o ambiente de trabalho possa ser considerado um espaço importante no planejamento de políticas públicas para a promoção da saúde, a exemplo do que acontece em outros países.

Estratégias contra o sedentarismo – Muito da obesidade começa nas escolas

Gaúcho que coordenou estudo sobre prática de atividade física analisa a repercussão de sua pesquisa, disseminada no mundo todo Pedro Hallal, pesquisador   Zero Hora – A pesquisa divulgada na revista médica The Lancet percorreu o mundo, através de centenas de publicações. Ao que o senhor atribui essa grande repercussão? Pedro Hallal – A grande repercussão mundial dessa pesquisa foi a comparação dos efeitos do sedentarismo com os do tabagismo. Tanto que no mesmo dia em que foi lançada, a Associação de Oncologia da Inglaterra fez um comunicado dizendo que as pessoas não interpretassem errado, pensando que poderiam fumar, porque não, fumar continua sendo o maior fator de risco para câncer no mundo. Porém, para nós, cientistas, foi a quantidade de adolescentes sedentários que mais assustou: 80% no mundo não praticam atividade física, entre os adultos o percentual é de 30%. Não esperávamos um número tão alto. ZH – Por que os adolescentes estão sedentários? Hallal – Muito do sedentarismo ocorre em função de educação física escolar, que é péssima. No Rio Grande do Sul, por exemplo, algumas escolas sequer têm professor da área da primeira à quarta série. No Ensino Médio, principalmente em escolas particulares, os adolescentes são estimulados a não participar das aulas de Educação Física para dedicar mais tempo de estudo ao vestibular. Temos pesquisas suficientes para afirmar que para aumentar o nível de atividade física da população, especialmente na adolescência, deve-se haver intervenção nas aulas escolares. ZH – Somente a obrigatoriedade das aulas de Educação Física já seria suficiente para diminuir esse índice? Hallal – A obrigatoriedade de três aulas semanais seria o ideal. Falo de uma aula de verdade, com progressão de conteúdo, com tempo para a prática do esporte, mas também com um conteúdo dedicado à saúde: como ensinar aos alunos como controlar a frequência cardíaca, quais os exercícios são indicados para cada situação, com atividades práticas, mostrando benefícios a curto prazo – faz um programa de duas a três semanas e mostra para os alunos o que aconteceu com a pressão arterial e outros indicadores. ZH – A pesquisa mostra que a tecnologia pode ser usada em benefício à prática da atividade física. De que forma? Hallal – Nós temos que ter estratégias de promoção da atividade física que usem a tecnologia, faz parte da vida moderna e atinge milhares de jovens do mundo todo. O videogame, que sempre foi visto como um vilão à saúde de crianças e adolescentes, na verdade é um incentivador para a prática do exercício. Temos evidências de que jovens adeptos dos jogos eletrônicos praticam mais atividade física e esportes fora de casa. E foi essa aproximação do vídeo game com o esporte que fez surgir os equipamentos ativos, como o Wii, que executa até funções de monitoramento da saúde do jogador. ZH – O que é pior para a saúde, um adolescente sedentário ou com excesso de peso? Hallal – Um dos achados de pesquisas mais intrigantes dos últimos anos é a teoria do fatten fit, que traduzindo para o português seria o gordo apto fisicamente. Uma pessoa um pouco gordinha, mas que faz exercício físico, tem uma saúde bem melhor que uma pessoa magrinha que não pratica atividade física. E isso serve para os adultos também, que resolveriam o problema da inatividade com uma simples mudança de hábito. Pode começar aos poucos: vai a pé para o trabalho, mas volta de ônibus; depois de uma semana, 15 dias, começa a ir e voltar a pé; depois caminha um pouco mais rápido. Já faz uma grande diferença e, além disso, estimula atividades em níveis mais intensos. ZH – E o setor da saúde, pode contribuir no combate ao sedentarismo? Hallal – Nos postos de saúde, que é onde a maioria da população consulta, recomendar a prática da atividade física deveria fazer parte da rotina. Os exercícios reduzem muito a necessidade de medicamento para pessoas com hipertensão e diabetes. Existem muitos casos de pessoas em estado de pré-diabetes que começam a se exercitar e não precisam usar remédio, além de diminuir muito o risco de virar diabético. O Brasil – um país que está tentando liberar remédio de graça para todo mundo que tem as duas doenças – deveria oferecer atividade física de graça para a população, investindo em espaço físico e academias populares. Certamente se gastaria menos com medicamentos. ZH – Existe previsão para um novo grande estudo nessa área? Hallal – Existem vários estudos de ponta na área de atividade física. O principal deles vai começar em 2014, vamos identificar as gestantes de Pelotas com parto previsto para 2015. Depois, vamos monitorar todos os nascimentos da cidade, entre 1º de janeiro e 31 de dezembro de 2015. Esperamos ter entre 4 mil nascimentos. Essas crianças serão acompanhadas para o resto da vida, o que garantirá respostas científicas que nós ainda não temos e que ajudarão na formulação de políticas públicas e na melhoria da qualidade de vida da população brasileira.